O
Sistema Único de Saúde enfrenta uma série de desafios para atingir
de maneira uniforme, em todos os locais em que atua, o padrão de
excelência a que se propõe. Sua concepção, abrangência e a prática
efetiva da universalidade são reconhecidas internacionalmente como
exemplares. E há grande número de casos em que a rede pública chega
muito próximo do ideal pretendido.
Mesmo assim, um dos desafios do SUS é romper a insistência
com que é retratado quase sempre a partir de notícias negativas.
Relativamente, são poucas as ocasiões em que o sistema é
apresentado em reportagens que apontem seus muitos acertos. E
nunca, ao menos nos grandes meios de comunicação, são denunciados
ataques - espécie de sabotagem, poderíamos dizer - a que é
submetido, como, por exemplo, o fato de a rede privada de hospitais
encaminhar seus clientes ao SUS em casos de alta complexidade,
aumentando as filas e fugindo ao que vendem - literalmente - à
opinião pública.
Nem fica explícito o fato de o fim da CPMF, que retirou fonte de
financiamento do SUS, não ter baixado os preços dos produtos, como
prometiam. O empresariado transformou em lucro a redução tributária
que conseguiu com a ajuda da oposição ao governo
Lula.
Outro caso muito grave de ataque ao SUS, e que merece atenção neste
período eleitoral, é a tentativa sistemática dos governos estaduais
paulistas, ao longo dos últimos anos, de esvaziar o caráter público
do sistema.
Um dos mais notáveis mecanismos dos governos do PSDB em São Paulo é
não cumprir de verdade a emenda 29. A emenda determina a aplicação
de 12% das receitas do Estado diretamente em serviços de saúde de
caráter universal. Para garantir o respeito a este princípio, os
movimentos populares de Saúde e o movimento sindical estão
pressionando pela regulamentação da emenda com o objetivo de, entre
outras coisas, estabelecer de maneira muito clara o que deve ser
considerado serviço de caráter universal.
Para simular cumprir os 12%, os governos estaduais tucanos em São
Paulo incluem na conta programas como os de distribuição de leite
ou o "Alimenta São Paulo", de distribuição de cestas básicas para
famílias de baixa renda. Por melhor que fossem, não são
investimentos no sistema público de saúde universal,
evidentemente.
Uma das consequências dessa postura é que os municípios são
obrigados a investir muito mais do que o determinado pela lei para
cobrir a ausência de participação do governo
estadual.
A secretária municipal de Saúde de Diadema, Aparecida Linhares
Pimenta, informa que a cidade investe 30% de suas receitas na rede
pública, quando a emenda 29 recomenda 15%.
Vice-presidente da Conasems (Conselho Nacional de Secretarias
Municipais de Saúde), Cidinha, como é conhecida a secretária,
denuncia também que, em média, as prefeituras investem 22% das
receitas.
Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo, afirma que são 25%
empenhados pela cidade, enquanto o governo estadual comparece só
com 1%. O restante vem de repasses federais.
Tal descaso vem acompanhado de uma estratégia privatizante que
atende pelo nome de Organizações Sociais (OS's), programa que
delega a entidades de caráter privado - fundações, ONG's e outras -
a administração de hospitais públicos, desde o uso do dinheiro que
recebem do Estado até a escolha de que tipo de paciente será
atendido, terceirizando a gestão. No Estado de São Paulo, já são 27
hospitais públicos entregues a OS's.
Entre os resultados dessa política, um exemplo recente e
escandaloso vem da região do ABC, onde o hospital estadual Mário
Covas, gerido por uma OS, suspendeu desde a semana retrasada o
atendimento de parto. Sem aviso prévio, sem nenhum tipo de
combinação com os prefeitos da região.
As entidades sindicais que atuam no Estado na área da Saúde já
fizeram algumas denúncias dessa prática, com sólida documentação.
Há casos em que hospitais geridos por OS's suspendem o atendimento
a acidentados, com o objetivo de cortar custos.
Além de desumano e contrário aos princípios da medicina, esse tipo
de postura rompe com a lógica do SUS e seus princípios de
equanimidade e universalidade.
A gestão dos recursos públicos pelas OS's não é submetido a
controle social. Denúncias de mau uso das verbas e interrupção de
atendimentos, quando vêm à tona, acontecem pelo trabalho de
sindicatos e de parlamentares, que cruzam relatórios do tribunal de
contas e informações colhidas através de investigação
militante.
Por fim, desmentindo os ideais de "competência" e "produtividade"
dos hospitais geridos pelas OS's, há relatos impressionantes de
gastos suspeitos. Um jornal de grande circulação denunciou, em
2007, que o orçamento das OS's era em média 13,5% maior que os da
administração direta, apesar de ter volume de internações 25,8%
menor.
Está na hora de aprofundar este debate.
Artur Henrique é presidente da CUT
nacional.
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