Emir Sader: “Só a democracia pode resgatar a política”
Em artigo, sociólogo e cientista político fala sobre a importância de se restabelecer o regime democrático
Por: Brasil 247
Publicação: 17/04/2017
Imagem de Emir Sader: “Só a democracia pode resgatar a política”

divulgação

Leia a seguir no portal CNTTL o artigo do sociólogo e cientista político, Emir Sader 

As acusações generalizadas contra os políticos consolidam a imagem de degradação da política, que seria uma prática inerentemente contaminada pela corrupção. Pareceria que não escapa ninguém, com acusações maiores ou menores, em uma modalidade ou outra. Mais além das intenções de quem propaga esse tipo de versão, a opinião pública já ficou impregnada dessa versão da política e dos políticos, que devem ser repudiados por todos. 

A política nasceu, na primeira versão da democracia, como a busca do bem comum. O contrário da busca de vantagens pessoais, que se contrapõe abertamente às praticas democráticas.

A política foi sendo corroída pelo poder do dinheiro, de diferentes maneiras. Seja pela generalização da atuação dos lobbies, que na pratica compram parlamentares com o financiamento das suas campanhas. Seja pelo próprio custo dessas campanhas, que demandam enormes recursos para viabilizar a eleição de um simples parlamentar. Seja pelo intrincado sistema de promiscuidade de grandes empresas privadas – de que as empreiteiras são o exemplo clássico -, que necessitam de apoios políticos para desenvolverem suas práticas de corrupção de setores dos governos que viabilizem as obras que os interessam.

O certo é que, sob a forma de caixa 1, de caixa 2, de propinas ou de outras formas similares, a política foi sendo corroída pelo poder do dinheiro, das grandes empresas privadas, que foram retirando, cada vez mais, da sua prática, o objetivo do bem comum, dos interesses gerais da sociedade.

Só a democracia pode permitir o resgate do sentido original e essencial da política. Porque só a democracia se fundamenta no financiamento público das campanhas eleitorais, só a democracia garante a transparência absoluta da prática dos políticos, dos governos, dos partidos. Só a democracia fundamenta os governos, os parlamentos, os partido, no voto popular, em que repousa a soberania.

No caso brasileiro atual, as acusações de formas de corrupção atingindo a todos os partidos, questionando a legitimidade de governos, de parlamentos, de partidos, coloca questão as bases ultimas da democracia. Mesmo que uma parte das acusações não se confirme, a sensação generalizada é que a própria política é uma prática corrupta, degenerada, abrindo caminho, perigosamente, para soluções antidemocráticas.

O Brasil não será mais o mesmo depois desta profunda e prolongada crise. Sairemos dela mais ou menos democráticos, aprofundando e estendendo a democracia ou restringindo-a profundamente. Já não haverá mais essa democracia meia boca, com vigência formal, mas não real, em que o poder do capital financeiro manda na economia e o povo tem o papel de decidir quem deve governar o país e com que poderes pode fazê-lo.

A contradição entre o poder real e o poder formal vai ter que ser dirimida. Ou o povo, soberanamente, decide o tipo de governo e de país que quer e os caminhos para realizá-lo, ou o povo é definitivamente alijado das decisões e uma casta burocrática a serviço do capital financeiro se instala definitivamente no governo e se blinda de qualquer tentativa de democratização dirigida por forças populares.

A crise brasileira atual requer mais e não menos democracia, mais e não menos participação popular, mais e não menos soberania popular, requer eleições livres e não tuteladas, requer governos legítimos, eleitos pelo voto popular e não governos blindados. Só a democracia plena pode resgatar a política diante dos olhos da população. Só lideranças populares, que detenham a confiança do povo, podem recuperar a legitimidade da política, dos governos e dos parlamentos, sem os quais a democracia fica ao sabor das ofensivas antidemocráticas dos interessados em desgastar a imagem da política tradicional e substituí-la pelo poder, sem nenhum controle democrático do povo, das corporações.

 

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